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Tentativa de criar primeiro sindicato de idols do K-pop fracassa após baixa adesão de artistas

A tentativa de criar o primeiro sindicato voltado especificamente para idols do K-pop na Coreia do Sul chegou ao fim sem conseguir reunir apoio suficiente entre os artistas. A iniciativa foi liderada por Bang Min-su, conhecido artisticamente como CAP e ex-integrante do TEEN TOP, que decidiu retirar o pedido de registro apresentado ao Ministério do Emprego e do Trabalho após cerca de nove meses de tentativa de formalização da entidade.

A proposta havia sido apresentada em setembro de 2025 e tinha como objetivo enfrentar algumas das principais dificuldades enfrentadas por artistas da indústria do entretenimento. Entre as reivindicações estavam a criação de uma renda mínima capaz de garantir condições básicas de sobrevivência e uma maior inclusão dos idols nos quatro principais sistemas de proteção social da Coreia do Sul: aposentadoria nacional, seguro de saúde, seguro-desemprego e cobertura para acidentes de trabalho.

O projeto também pretendia ampliar a responsabilidade das agências diante de ataques virtuais contra seus artistas. A ideia era que as empresas adotassem medidas para solicitar a retirada de comentários considerados maliciosos e prestassem auxílio aos idols que quisessem recorrer à Justiça em casos de difamação ou outras formas de abuso online.

Apesar de Bang ter afirmado inicialmente que aproximadamente dez idols demonstravam interesse na iniciativa, o pedido oficial apresentado às autoridades continha somente dois integrantes. A diferença entre a expectativa inicial e o número efetivamente registrado evidenciou uma das principais dificuldades para a criação da organização: convencer artistas em atividade a assumir publicamente uma posição coletiva diante de suas próprias agências.

O processo também encontrou obstáculos burocráticos. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, o comitê preparatório recebeu quatro solicitações das autoridades para corrigir ou complementar documentos considerados insuficientes. Os responsáveis, porém, não teriam conseguido obter o suporte jurídico ou administrativo necessário para avançar com o procedimento.

Em 13 de maio de 2026, Bang retirou formalmente o pedido de constituição e solicitou o cancelamento do registro. Ao justificar a decisão, afirmou que haviam surgido divergências de valores entre os integrantes envolvidos na iniciativa.

O episódio expõe uma questão mais ampla sobre a relação entre artistas e empresas de entretenimento na Coreia do Sul. Embora os idols sejam, em princípio, vinculados às agências por contratos exclusivos, a dinâmica existente durante a formação e os primeiros anos de carreira pode apresentar características semelhantes às de uma relação de emprego. A dependência financeira, o controle sobre a rotina profissional e a possibilidade de substituição por outros trainees tornam a negociação individual especialmente delicada.

Esse desequilíbrio de poder não é uma novidade na indústria. Desde os primeiros grandes grupos da chamada primeira geração do K-pop, conflitos envolvendo contratos, remuneração, condições de trabalho e tratamento de artistas aparecem de maneira recorrente. O caso do H.O.T., que rompeu com a SM Entertainment em meio a acusações de condições contratuais consideradas injustas, tornou-se um dos episódios mais conhecidos desse histórico.

A própria estrutura financeira do mercado contribui para a complexidade dessas relações. As empresas costumam realizar investimentos significativos durante o período de treinamento, antes que um grupo sequer faça sua estreia. Uma fonte do setor estimou que colocar uma nova equipe no mercado pode exigir investimentos de 5 bilhões a 20 bilhões de won. Como o retorno depende do desempenho comercial do artista, o modelo cria uma relação de alto risco para as companhias e também pode resultar em mecanismos de recuperação de despesas posteriormente repassados aos artistas, dependendo das condições estabelecidas em contrato.

A cantora Hyebin, ex-integrante do Momoland, chamou atenção para esse aspecto ao explicar, em vídeo publicado em julho, que trainees de empresas menores podem acumular despesas relacionadas a aulas, alimentação, moradia e espaços de ensaio. Em determinadas situações, esses custos só seriam cobrados depois da estreia, criando uma espécie de dívida inicial para o artista.

Para especialistas do setor, o problema também está relacionado à duração dos treinamentos e à hierarquia construída dentro das agências. Kim Jeong-seop, professor da Universidade Feminina de Sungshin, avaliou que a relação entre empresa e artista pode deixar de funcionar como uma parceria à medida que a estrutura de treinamento estabelece uma forte assimetria de poder.

Dados da pesquisa de 2025 da Agência Coreana de Conteúdo Criativo mostram que a percepção de problemas contratuais é significativa, embora muitos profissionais não tenham uma opinião definida sobre o assunto. Entre 1.040 artistas entrevistados, 45,1% disseram acreditar que existem contratos abusivos na indústria cultural, enquanto 43,4% afirmaram não saber avaliar a questão e 11,5% responderam negativamente.

Entre os 183 cantores incluídos no levantamento, 47,6% consideraram que existem contratos abusivos, 46,4% disseram não ter certeza e 6% afirmaram que não. A pesquisa também indicou que 4,9% dos cantores haviam enfrentado algum tipo de conflito contratual com uma agência nos três anos anteriores. Outros relataram problemas como pagamentos não realizados e práticas consideradas injustas no ambiente profissional.

A divisão das receitas é outro ponto de tensão. Ao contrário de uma relação tradicional baseada em salário fixo, muitos contratos de idols estabelecem percentuais de distribuição dos ganhos. Para Bae Guk-nam, crítico de cultura pop, a dificuldade em distinguir claramente o que constitui investimento da agência, quais despesas podem ser descontadas e como os lucros devem ser repartidos cria terreno para conflitos, especialmente quando um artista alcança sucesso comercial.

Os próprios contratos padronizados utilizados pelo governo sul-coreano refletem parte dessa complexidade. No caso dos trainees, o modelo estabelece que a agência deve assumir os custos necessários à formação, mas permite que a forma de eventual desconto dessas despesas seja definida posteriormente por acordo entre as partes. Na prática, isso pode deixar margem para interpretações diferentes sobre quem deve arcar com determinados gastos.

Outro obstáculo para uma organização sindical de idols está na própria definição jurídica desses profissionais. Ainda existe discussão sobre quando um artista contratado por uma agência pode ser reconhecido como trabalhador para fins da legislação sindical. Os contratos exclusivos normalmente estabelecem divisão de receitas e não necessariamente uma relação formal de salário, o que torna a classificação jurídica mais complexa.

O caso envolvendo Hanni, do NewJeans, mostrou essa dificuldade. Depois de a cantora denunciar uma situação que classificou como assédio no ambiente profissional, as autoridades trabalhistas entenderam que ela não se enquadrava na definição de trabalhador prevista pela Lei de Normas Trabalhistas, o que impediu a aplicação das proteções previstas nessa legislação específica.

A legislação sindical, entretanto, apresenta uma interpretação potencialmente mais abrangente. Em uma decisão de 2018 envolvendo artistas de radiodifusão, a Suprema Corte sul-coreana estabeleceu que o conceito de trabalhador para fins de organização sindical não precisa ser idêntico ao utilizado pela legislação trabalhista tradicional.

Na avaliação de situações desse tipo, podem ser considerados elementos como dependência econômica, forma de negociação dos contratos, importância daquele trabalho para a atividade empresarial, duração e exclusividade da relação, nível de orientação e controle exercido pela empresa e natureza da remuneração. A decisão reconheceu que determinados profissionais do setor artístico podem ser protegidos pela legislação sindical mesmo quando não possuem uma relação de emprego convencional.

Apesar desse precedente, a aplicação dessas regras aos idols ainda envolve incertezas. Para artistas que estão no auge da carreira, participar de uma organização coletiva pode significar entrar em confronto com empresas das quais dependem para produção, divulgação, contratos comerciais e continuidade profissional. O receio de prejudicar relações com as agências pode ajudar a explicar a dificuldade de transformar o interesse inicial em adesões efetivas.

Com o encerramento da iniciativa de Bang, a discussão, porém, não desapareceu. O Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, responsável por políticas relacionadas à indústria cultural e pelos contratos-padrão do setor, informou que está avaliando possíveis medidas para lidar com os problemas expostos pela tentativa de criação do sindicato.

O governo também afirma oferecer apoio jurídico em casos envolvendo contratos considerados abusivos e mantém pesquisas periódicas sobre as condições dos profissionais da cultura popular. A expectativa é que o debate sobre direitos, remuneração, proteção social e equilíbrio contratual continue sendo tratado por meio dessas políticas, enquanto a indústria de K-pop segue buscando conciliar os elevados investimentos necessários para lançar novos artistas com condições profissionais mais claras para quem está no palco.

Imagem: Reprodução/The Korea Times

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