A Academia de Gravação decidiu reabrir a discussão sobre a nova categoria de Melhor Performance de Música Pop Asiática do Grammy após a reação negativa de parte da comunidade musical e a decisão do BTS de não submeter suas gravações à edição de 2027. A Academia afirmou que pretende ouvir artistas, executivos, gravadoras e representantes de diferentes mercados antes de definir se o formato atual será mantido ou alterado.
A movimentação ocorre poucas semanas depois de o BTS anunciar que ficaria de fora do processo de inscrição deste ano. Em mensagens publicadas individualmente pelos integrantes, o grupo explicou que prefere que sua música seja avaliada por suas características artísticas, e não separada em função da região ou do idioma em que é produzida. A decisão ganhou grande repercussão por envolver um dos principais nomes do K-pop e colocou sob os holofotes uma categoria criada com a intenção de ampliar o reconhecimento internacional da música asiática.
Em comunicado divulgado nesta sexta-feira (14), Harvey Mason Jr., CEO da Recording Academy, reconheceu que as conversas realizadas nas últimas semanas revelaram insatisfação entre artistas ligados ao segmento. Segundo ele, alguns músicos entendem que a nova categoria não traduz adequadamente o trabalho que desenvolvem e a forma como gostariam de ser reconhecidos.
A partir dessa reação, a Academia pretende reunir seu Conselho Administrativo e o Comitê de Premiações e Indicações para avaliar a categoria e discutir possíveis mudanças. As conversas envolvem representantes de diferentes mercados, entre eles K-pop, J-pop, C-pop e a indústria musical indiana. A própria HYBE, empresa responsável pela gestão do BTS, também teria participado das discussões com os representantes da premiação.
A preocupação central está relacionada à maneira como uma categoria regional pode afetar a percepção sobre artistas que atuam em mercados globais. Embora a Academia sustente que a criação de uma categoria específica amplia as possibilidades de reconhecimento, parte dos músicos teme que o enquadramento acabe funcionando como uma divisão dentro da própria premiação.
A regra atual, porém, não impede que uma música inscrita em Pop Asiático também seja considerada nas principais categorias do Grammy. Gravações elegíveis podem concorrer a prêmios como Gravação do Ano, Álbum do Ano e Canção do Ano, independentemente de gênero, idioma ou origem do artista.
Existe, entretanto, uma limitação importante nas categorias de performance. Uma mesma gravação só pode disputar uma categoria desse tipo em determinado ano. Dessa forma, uma música inscrita em Melhor Performance de Música Pop Asiática não pode simultaneamente concorrer, com a mesma gravação, em outra categoria de performance, como Melhor Performance Pop de Duo ou Grupo. Um artista, por outro lado, pode aparecer em diferentes categorias utilizando gravações distintas.
A descrição atualmente adotada pelo Grammy estabelece que a nova categoria foi criada para reconhecer performances de música pop contemporânea associadas aos mercados asiáticos. K-pop, J-pop e C-pop estão entre os estilos mencionados pela Academia. A definição também considera elementos como composição pop, produção voltada ao mercado, integração entre música e performance e a possibilidade de incorporar influências de pop-rock, R&B e outros gêneros próximos.
Outro critério estabelecido é o uso significativo de um ou mais idiomas asiáticos. Uma música predominantemente ou integralmente cantada em um idioma asiático pode ser elegível, enquanto o uso pontual de palavras ou pequenas frases não seria suficiente. Produções cantadas totalmente em inglês permanecem fora dessa categoria, mas podem disputar outros prêmios para os quais sejam elegíveis.
A Academia também esclarece que nacionalidade e etnia não determinam a elegibilidade. O principal critério é o estilo musical da gravação. Essa distinção foi incluída para evitar que o prêmio seja entendido como uma categoria baseada na identidade dos artistas, em vez das características da música.
A reação ao anúncio também trouxe à tona uma discussão mais ampla sobre a política de criação de categorias do Grammy. A premiação chegou a mais de 100 categorias e, segundo a Academia, o processo poderá ser revisto para que futuras mudanças sejam discutidas de maneira mais ampla antes de serem anunciadas.
Atualmente, propostas de novas categorias ou alterações nas regras podem ser apresentadas durante todo o ano por membros votantes e profissionais da Academia. Na primavera, o Comitê de Premiações e Indicações analisa as sugestões e encaminha aquelas aprovadas ao Conselho Administrativo, que realiza a votação final durante sua reunião semestral. As mudanças aprovadas passam a valer para a edição seguinte do Grammy.
A controvérsia também levou a Academia a defender integrantes da chamada Gold Music Alliance. Segundo a organização, alguns voluntários ligados ao grupo foram alvo de ataques e ameaças nas redes sociais por pessoas que acreditavam que eles haviam participado diretamente da criação da nova categoria. A Academia esclareceu que a definição ocorreu dentro do processo regular de premiações e indicações.
O episódio coloca o Grammy diante de uma decisão incomum: revisar uma categoria recém-criada antes mesmo de sua primeira edição. A votação inicial para o Grammy 2027 está prevista para começar em outubro, enquanto o anúncio dos indicados deve ocorrer em novembro. Até lá, a Academia terá de avaliar se o modelo atual consegue cumprir a proposta de ampliar a representação da música asiática ou se será necessário reformular a categoria para atender às preocupações apresentadas pelos próprios artistas que ela pretendia homenagear.
Mais do que uma discussão sobre nomenclatura, o debate expõe uma questão recorrente na indústria musical: como reconhecer características culturais e regionais sem transformar essas mesmas características em barreiras para artistas que já atuam em um mercado cada vez mais internacionalizado. No caso do Grammy, a decisão que vier a ser tomada poderá influenciar não apenas a edição de 2027, mas também a forma como novas categorias serão criadas no futuro.
Imagem: Reprodução/X (@bts_bighit)













