Nos cantos mais obscuros da web coreana, entre fóruns anônimos, blogs esquecidos e vídeos amadores, surgiram histórias que se tornaram parte do imaginário digital do país. Algumas atravessaram fronteiras e ganharam novas formas mas todas compartilham o mesmo poder, o de transformar a curiosidade em medo. Das maldições virtuais que rondam os comentários online, ao misterioso “Jogo do Elevador” essas lendas revelam um lado da Coreia em que o terror se mistura à tecnologia.
1. A Maldição do Comentário Online

Entre as lendas digitais mais recentes, a Maldição do Comentário Online é uma das que mais refletem os medos modernos da Coreia. Surgida entre 2018 e 2020 em fóruns e blogs, a história diz que toda vez que alguém publica um comentário cruel ou difamatório, o espírito da vítima “marca” o autor e, nos sete dias seguintes, ele começa a ser assombrado por mensagens automáticas, ruídos misteriosos nos dispositivos e reflexos distorcidos na tela do celular. Acredita-se que a lenda tenha nascido como uma metáfora para o impacto psicológico do cyberbullying e do assédio virtual.
Com o tempo, a história evoluiu para uma creepypasta completa, com “provas” publicadas em fóruns, prints de conversas amaldiçoadas e relatos de usuários que juram ter sido perseguidos por suas próprias palavras.
Mais do que uma fábula sobrenatural, a Maldição do Comentário é um espelho sombrio do comportamento online, e um lembrete de que na era digital, as palavras também podem se tornar fantasmas.
2. 12 12 Legend (1‑2……1‑2)

Nascida em fóruns estudantis e grupos de bate-papo coreanos no fim dos anos 2000, a 12:12 Legend descreve um ritual digital que deve ser feito exatamente à meia-noite e doze minutos. O usuário precisa abrir um chat ou um aplicativo específico, e digitar a sequência 1-2-1-2-1-2, três vezes seguidas sem interrupções. Logo depois, de acordo com os relatos, surge uma notificação anônima com a mensagem: “Agora você me chamou.”
A partir daí, cada história assume um rumo diferente. Alguns dizem ouvir batidas na parede, outros afirmam que o relógio do celular trava para sempre em 12:12. Há ainda quem jure ter recebido mensagens de um número inexistente, contendo fotos do próprio quarto, tiradas de um ângulo impossível. O ritual já foi recriado em transmissões ao vivo e fóruns de terror, alimentando o fascínio coletivo por um tipo de medo que não precisa de fantasmas visíveis apenas de uma notificação de algo desconhecido.
3. Dalgyal Gwishin

O Dalgyal Gwishin é uma das figuras mais intrigantes do folclore coreano. Diferente dos fantasmas tradicionais, esses espíritos não tem rosto, suas cabeça são lisas e pálidas, como um ovo. A versão moderna da lenda renasceu nos anos 2010 em fóruns online e canais de horror, sendo reinterpretada como uma entidade que surge em vídeos ou transmissões ao vivo, especialmente quando alguém tenta invocar fantasmas por curiosidade.
De acordo com os relatos, quem vê um Dalgyal Gwishin na tela, mesmo que por poucos segundos, perde a capacidade de reconhecer rostos humanos por dias. Em histórias publicadas em comunidades de terror, usuários descrevem rostos borrados nas fotos, glitches em transmissões e reflexos distorcidos em webcams. A aparição é quase sempre silenciosa, sem olhos, boca ou nariz, mas com a presença opressiva de quem observa de volta. O sucesso da lenda está na fusão entre o tradicional e o tecnológico. O gwishin clássico dos contos coreanos agora vive na rede, transformado em símbolo da despersonalização e da exposição digital.
4. O Jogo do Elevador

A história começou a circular em fóruns coreanos nos anos 2000, ganhando força em blogs e vídeos amadores. Segundo a lenda, a pessoa deve entrar em um prédio de pelo menos dez andares, pressionar uma sequência exata de botões (4º, 2º, 6º, 2º, 10º e 5º andar) e, se tudo for feito corretamente, uma mulher misteriosa pode entrar no elevador. Ela não deve ser olhada, nem tocada pois, segundo a lenda, não é humana. O objetivo do ritual é chegar ao “outro mundo”, uma versão distorcida da realidade onde o prédio parece abandonado, as luzes piscam e a cidade está coberta por um tom avermelhado. O retorno exige repetir o processo ao contrário, sem cometer erros. Muitos relatos em fóruns anônimos descrevem sensações de vertigem, interferências elétricas e a presença da tal mulher mesmo após o ritual terminar.
Com o tempo, a história ultrapassou fronteiras, o jogo ganhou versões em inglês e se espalhou por plataformas como Reddit e YouTube, inspirando curtas, fanarts e até investigações sobrenaturais. A lenda também foi ligada a casos reais como o de Elisa Lam, estudante canadense que morreu em circunstâncias misteriosas em um hotel em Los Angeles, após ser vista pela última vez em imagens de elevador. Embora sem relação comprovada, o vídeo reacendeu o medo global em torno do jogo.
No fim, o que essas histórias têm em comum é mais do que o susto. Elas refletem uma era em que o medo já não vive em becos escuros, mas em telas iluminadas. Cada thread, cada vídeo, cada relato anônimo é um eco da relação da Coreia com o sobrenatural em tempos digitais. Ele está nas telas, se espalhando por mensagens e comentários, transformando o ciberespaço em um território onde a imaginação e o horror se encontram.
Imagens: Ilustrações gerada por I.A (Gemini)













