O álbum ARIRANG, do BTS, não é apenas um retorno musical, mas uma afirmação da identidade cultural coreana. O próprio título do trabalho faz referência direta a Arirang, um conjunto de canções folclóricas que circula na península coreana há séculos. Transmitidas oralmente, essas músicas foram moldadas por histórias de dor, separação e resistência, carregando a memória coletiva de um povo que enfrentou ocupações, guerras e divisões políticas. Durante a ocupação japonesa, Arirang tornou-se símbolo de resistência, e depois da Guerra da Coreia, passou a expressar o sofrimento de famílias separadas e de uma nação fragmentada. Reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial, a canção permanece como um elo entre passado e presente, e é essa tradição que o álbum busca traduzir para o contexto contemporâneo do pop global.
A capa do álbum funciona como uma ponte visual para essa história. Ela remete à primeira gravação de uma música coreana registrada fora da Coreia, feita em 24 de julho de 1896. Cinco estudantes da Universidade Howard, nos Estados Unidos, participaram de uma sessão supervisionada pela etnóloga Alice C. Fletcher e gravaram a canção “Love Song: Ar-ra-rang” em cilindros de cera, o que representou a transição de uma tradição oral para uma preservação tecnológica. Esses registros, hoje preservados na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, tornaram-se um dos primeiros encontros entre a cultura musical coreana e o público internacional. Ao evocar essa imagem, o álbum conecta visualmente a ancestralidade e a projeção global da cultura coreana, lembrando que a história da música coreana sempre esteve marcada por circulação e resistência.
Em “Body to Body”, essa conexão com a tradição aparece de forma sonora e simbólica. A faixa termina com um sample da versão Bonjo Arirang, originária de Seul. Historicamente, Arirang fala sobre a travessia de uma colina e a dor da separação, encapsulando o conceito de han, um lamento profundo e coletivo. No entanto, na música, o trecho não é usado para transmitir tristeza; o grupo opta por valorizar o refrão e a força do coro, destacando a coletividade e a energia do canto. Ao colocar o sample no final, a faixa cria uma ponte do moderno ao tradicional, lembrando que, mesmo em um contexto globalizado, as raízes culturais permanecem vivas e relevantes.
“Aliens” concentra uma série de referências culturais distribuídas de forma estratégica ao longo da música. Um dos primeiros elementos é a menção ao “jungmori”, uma estrutura rítmica tradicional usada em gêneros como pansori e samulnori, caracterizada por um andamento moderado em compasso 12/8, semelhante a um ritmo de caminhada. Na letra, o verso convida o público a bater palmas e se mexer no ritmo do jungmori, reforçando a participação ativa e a conexão entre artista e espectador que sempre fez parte das performances coreanas tradicionais.
Outro momento simbólico na mesma faixa é o verso que fala sobre deixar os sapatos na porta antes de entrar em casa. Na Coreia, andar descalço dentro de casa é uma norma cultural, e nesse contexto, a referência funciona como metáfora: aqueles que querem consumir a música coreana, ou fazer parte do espaço criado pelo grupo, precisam respeitar a cultura e seus costumes, em vez de tentar impor normas externas.
Ainda em “Aliens”, o grupo cita o alfabeto hangul ao cantar “do ka-na ao ha”. O hangul, criado no século XV, é um sistema de escrita que simboliza a identidade linguística e cultural coreana. Ao adaptar a expressão ocidental “de A a Z” para “do ka-na ao ha”, o BTS mostra domínio completo de sua língua e tradição. O contraste com o verso seguinte, que os define como “alienígenas”, cria uma tensão entre a percepção de estrangeiros na indústria global e a autoridade cultural que eles exercem dentro de seu próprio contexto. A música ainda incorpora uma citação a Kim Gu, que liderou movimentos de resistência contra a ocupação japonesa e lutou pela reunificação da Coreia, conectando o discurso artístico do grupo a uma memória histórica de luta e identidade nacional.
Em “they don’t know ‘bout us”, a faixa abre com a palavra “chonnom”, tradicionalmente usada para descrever pessoas do interior de forma pejorativa. Historicamente, a palavra carregava a ideia de alguém inexperiente ou pouco sofisticado em comparação com os centros urbanos. O BTS ressignifica o termo, transformando-o em sinônimo de autenticidade e orgulho de origem. Ao posicioná-lo no primeiro verso, a música estabelece desde o início uma narrativa que rejeita interpretações externas sobre seu sucesso e reforça uma identidade enraizada nas tradições e na cultura popular coreana.
Ao longo dessas três faixas, o álbum constrói uma ponte entre passado e presente, tradição e contemporaneidade, memória e projeção global. A escolha do título, a referência visual na capa e a inserção de elementos como Arirang, jungmori, hangul e termos populares demonstram que ARIRANG não é apenas uma obra pop, mas também uma celebração consciente da herança cultural coreana, conectando gerações e convidando o público internacional a compreender e respeitar essa história.
Imagem: Divulgação Melon













