A Coreia do Sul tem uma longa tradição de crenças sobre a vida após a morte, que mistura budismo, xamanismo, confucionismo e folclore local. Apesar de ser um país altamente moderno e tecnológico, essas tradições continuam a influenciar a forma como muitos coreanos encaram a morte, o luto e o destino da alma.
No folclore coreano, acredita-se que os mortos podem permanecer próximos aos vivos. Espíritos que morreram de forma violenta ou injusta podem se tornar “gwishin”, que são fantasmas geralmente descritos com roupas brancas e cabelos longos, associados a lamentos ou aparições repentinas, como os Cheonyeo Gwishin, espíritos de donzelas que morreram jovens ou virgens, e os Wonhon Gwishin, que são almas daqueles que morreram carregando mágoa ou ressentimento, e podem permanecer próximas aos vivos, causando infortúnios. Para muitos coreanos, esses seres representam forças invisíveis que coexistem com o cotidiano, lembrando que a morte não é um ponto final, mas uma transição cercada de mistério.
O xamanismo, por sua vez, ensina que os espíritos dos mortos podem influenciar a sorte e a vida das pessoas. Rituais chamados “gut” são realizados para acalmar ou apaziguar essas presenças, oferecendo comida, bebida e objetos simbólicos, garantindo que o espírito siga seu caminho e não cause desequilíbrios. Esses rituais são conduzidos por mudang (xamãs), em sua maioria mulheres, que servem como mediadoras entre o mundo dos vivos e o dos espíritos.
Já o budismo introduz a ideia de reencarnação, na qual as ações de uma pessoa durante a vida determinam seu destino após a morte. Enquanto alguns espíritos podem renascer de forma positiva, outros passam por provações antes de alcançar a paz. O confucionismo, por outro lado, enfatiza o respeito aos ancestrais, com rituais como o “jesa”, nos quais famílias oferecem comida, lembranças e orações aos mortos, mantendo vivos os laços familiares e reforçando o vínculo entre vivos e falecidos.
Apesar de rituais e crenças respeitarem os mortos, quem trabalha diretamente com eles, como funcionários de cemitérios e necrotérios, enfrenta preconceito e estigma social. Historicamente consideradas profissões impuras, essas pessoas eram associadas à má sorte e à contaminação espiritual, o que levava muitos trabalhadores a esconderem sua ocupação para evitar isolamento ou discriminação. Muitos desses profissionais também relatam experiências misteriosas ou fenômenos estranhos durante o trabalho, mostrando que lidar com a morte é, acima de tudo, lidar com o limite entre o visível e o invisível, e com o respeito que a vida continua a exigir, mesmo após o fim.
Entre práticas ancestrais, relatos de presenças invisíveis, mitos modernos e tabus sociais, o sobrenatural permanece presente no cotidiano. Mesmo em um país altamente moderno, antigas crenças continuam a moldar percepções, histórias e experiências.
Imagem: Ilustração gerada por I.A (Gemini)













